O farol e a forja
Isto é uma crônica ou um manual desses cursos estereotipados que se vendem na internet?
1 O meu problema com a modernidade é a pornografia. Estava numa angústia excruciante, tentando trazer a palavra ao sentimento que me corroía as entranhas. Agora achei: o que me fere a alma é a pornografia do nosso tempo. Não se engane, leitor. Aqui não se trata apenas das moças em pêlos sentando em jebas mastodônticas diante de câmeras 8k. Se fosse só a nudez do corpo, haveria mais esperança. Mas essa nudez pornográfica invadiu a nossa alma e maculou o nosso espírito.
2 Ainda lembro, na puberdade, de quando folheava as musas da Playboy. Confesso meu pecado sujo: sempre preferi a seção Click ao invés do ensaio principal. Hoje sei o porquê: sugestão. Ora, as moças que apareciam ali sugeriam a nudez ao invés de a escancarar. Por isso mesmo me atraíam, me aguçavam a curiosidade, excitavam a minha imaginação, moviam o meu corpo e o meu espírito. Ah, que vontade de desbravar aquelas mulheres cuja nudez era uma previsão, e não uma certeza absoluta.
3 Quando tive acesso às revistas mais vulgares, apesar de excitarem-me o corpo, não excitavam-me o espírito. Já estava tudo ali, entregue, de bandeja: um pau numa vagina em qualidade máxima. Obrigava-me ao ato onanista carregando um semblante triste. O gozo apenas coroava a tristeza. Com os filmes pornográficos foi ainda pior. O pau na vagina agora se mexia. Toma!, telespectador. É isso o que você quer? Então se deleite, se empapuce de pau e vagina — por isso que preferia as lésbicas.
4 Sim, é isso o que eu quero, mas não dessa forma. Achei mais uma palavra para aliviar minha angústia: forma. Tentei ler A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, mas não consegui ir até o fim. Kundera tentou juntar, numa mesma obra, um romance com um ensaio filosófico e acabou que não fez nada bem feito. Perdoem-me os kunderianos, mas achei medonho o Kundera ter de explicar algumas cenas para o leitor, o porquê de os personagens fazerem tal e tal ato etc. Tenha classe, Kundera. Isso é literatura ou autoajuda?
5 A forma me pega. Não é à toa que quando releio as piores coisas que já escrevi, está lá, enterrada como um sapo de macumba, a forma pornográfica. E aqui não me atenho a pinto e buceta, mas à mania de ter de explicar para o leitor tim-tim por tim-tim. Ora, isto é uma crônica ou um manual desses cursos estereotipados que se vendem na internet? A beleza muitas vezes está naquilo que não se escreve e que não se explica. Deixo assim ficar subentendido…
6 Ao mesmo tempo, como vivemos na era pornográfica, onde qualquer miserável só quer o paroxismo de cada experiência, é preciso suprimir o ego e mandá-lo à pê-quê-pê se quiser manter-se fiel à forma mais nobre que existe, a qual ainda não sei como nomeá-la, mas consigo caracterizá-la. Tal forma é envolta em mistério e profundidade. Poderia acrescentar, de lambuja, a sinceridade e a paixão fulminante do criador.
7 Entendo que essa é a minha dor, e demorei tempos para localizá-la. Eu sabia que havia algo de errado quando inventei de vender um curso intitulado O Pilar do Relacionamento; ou ainda, quando passei a enviar e-mails ensinando miseráveis a viverem suas vidas da maneira correta. Perdoe-me, musa da arte. É possível ganhar o-pão-nosso-de-cada-dia sem fingir ter certezas absolutas sobre tudo?
8 Há, em cada meandro do nosso limbo moderno, certezas absolutas sendo escancaradas das formas mais grotescas que se possa imaginar, para uma multidão de leads que anseia pela isca do “jeito absolutamente certo de ser e de se fazer qualquer coisa”. E o mundo está cheio de gente que carrega as certezas na fuça, por isso mesmo é tão nauseante.
9 Poderiam acusar-me de relativista, esquerdopata, progressista. Admito: creio e faço coisas que fariam alguns conservadores arrepiarem até os cabelos do cu. Mas a moda de hoje é rotular a alma com espectros políticos. Esses dias fui obrigado a ver um intelectual dito conservador — e defensor da arte — afirmando que Nelson Rodrigues era de direita. Isso é pornográfico! Antes de citar uma mísera obra ou uma das frases espectrais da nossa Flor-de-Obsessão, atira-lhe um rótulo político, como quem diz: “Estão vendo, pessoal? Ele é do nosso clubinho.”
10 Não, meu caro. Nelson era o seu próprio clube. Eis aí o grande homem: tem horror a passeatas, coletivos, rótulos, multidões, manadas e certezas absolutas. Ele sabe que ali há tudo, menos um indivíduo de carne, ossos e fluidos.
11 E por acostumarmos mal a multidão, agora ela se torna incapaz de contemplar o mistério. Ela quer a pornografia! Quer o método ideal, a fórmula da felicidade, o checklist da produtividade, o título vulgar, a promessa de salvação num curso ou numa ideologia, o corte rápido Tramontina, a vidinha idílica a pronta-entrega.
12 Eis o que é a pornografia para este homem que lhe escreve semanalmente: um reducionismo do mistério, um desacato à vida, uma vulgarização do humano. Mas entendo com diáfana nitidez a minha posição no mundo. Não sou juiz. Não sou político. Não sou sacerdote. Não sou diplomata. Não sou CEO de uma grande empresa. Não sou sequer um “catolicuzão”. Dou graças a isso. Sou uma espécie de burguês trans. Explico: nasci com alma de artista e obrigaram-me a negá-la para tornar-me uma ratazana vencedora na corrida dos ratos.
13 Assumo também a minha culpa e miséria, a minha inação por pusilanimidade. Mas estou saindo, aos poucos, do armário. Pela fresta, ao mesmo tempo que vejo o estrago que fiz com minha própria alma ao me enveredar por esses rincões pornográficos, enxergo também uma esperança de tornar-me aquilo que sempre nasci para ser: eu mesmo.
Crônica escrita por Guilherme Angra em maio de 2026.
Além de escritor, sou terapeuta desde 2021. CLIQUE AQUI caso queira saber como funciona o meu trabalho no consultório.



Jogar solto no mundo, sem medo do ridículo. Realmente Guilherme, você está “entrando” em mim.
Foda 🤯, quer dizer…